Resenhas: Os Pecadores
Publicado em: 11/02/2026 17:23Resenha por Beatrice:
Sem sombra de dúvida, trata-se de um filme imprevisível. Começo rasgando elogios à fotografia, ao figurino e à trilha sonora, um verdadeiro deleite para os olhos e os ouvidos. Esses elementos foram, sem dúvida, o que mais me prendeu de início.
O começo é empolgante, envolvente, mas no decorrer da narrativa o filme perde ritmo. Em determinado ponto, torna-se arrastado, a ponto de despertar o desejo de que chegasse logo ao fim, mesmo sendo pontuado por cenas isoladamente impactantes.
Um dos grandes destaques é a atuação de Wunmi Mosaku. Além de esbanjar uma beleza surreal, ela entrega uma personagem magnética: uma bruxa sábia, astuta, com a elegância e a imponência de uma rainha.
A sensação que fica é a de uma mistura entre sofisticação estética e a crueza de um filme gore à la Tarantino. Em alguns momentos, remete a Um Drink no Inferno, porém filtrado por elementos culturais e políticos que fogem do padrão hollywoodiano tradicional. Essa combinação inusitada evidencia a ousadia e a coragem de Ryan Coogler ao apostar em uma obra atípica, que arrisca e nem sempre acerta, mas definitivamente se destaca.
Esse filme é uma obra que merece ser experimentada, mesmo que fuja daquilo esperado pelo espectador, mesmo fugindo do controle, é algo que nos tira de órbita por ter tantos elementos diferentes em uma só trama, demorei dias par digerir e dizer: vale a pena conferir e se deleitr.
Resenha por Kevin:
Hoje em dia, muitos filmes parecem fazer força para se isentar de sentimentos mais profundos. Com o intuito de agradar todo mundo, fogem como o diabo da cruz — analogia que, acredito, seja especialmente coerente com o filme resenhado hoje — de algo mais profundo que uma poça raza (se bem que até uma poça matou nosso herói de Corpo Fechado). Evitam qualquer coisa que possa provocar uma emoção real, porque pessoas diferentes podem reagir de formas diferentes diante de uma mesma proposta, mesmo quando ela é “inatamente” boa. Pecadores não é esse tipo de filme covarde.
O telespectador com o mínimo de sensibilidade vai se deliciar com as músicas que embalam o filme, fortemente marcadas pela representação de grupos historicamente oprimidos que ajudaram a povoar o imaginário da música popular. E terá o sangue fervido — entendeu a referência ao sangue? Um pequeno easter egg (piscadinha e meio sorrisinho mostrando o canino). As atuações sustentam completamente o filme, com destaque principal para a dupla de um homem só formada por Michael B. Jordan e seu parceiro, o igualmente esbelto Michael B. Jordan. O elenco de apoio também é ótimo, com menções especiais à atriz que interpreta Annie (descobri depois que seu nome é Wunmi Mosaku), ao ator que faz Sammy (Miles Caton) e à figurinha carimbada Hailee Steinfeld, além de outros destaques cujos nomes me fogem agora.
Mas nem só de atuação vive um filme — e Ryan Coogler sabe muito bem disso. Com uma montagem afiadíssima, o ritmo é conduzido de forma deliciosa, como sangue fresco para o lorde Drácula, e você simplesmente não sente o tempo passar. Soma-se a isso uma cinematografia nada óbvia: há momentos contemplativos, outros mais frenéticos, uso de grande angular de maneira adequada e aplicação de filtros para delimitar a natureza de certas cenas. Nada é gratuito. Talvez aí resida a verdadeira força do filme: tudo é feito com propósito.
Respeitando as regras internas que ele próprio constrói — e sem subestimar a inteligência do telespectador — Pecadores faz com que suas camadas superficiais e subcamadas se comuniquem de maneira exímia. Quando há música, ela comunica algo; quando há contemplação, ela também comunica. Isso sem falar da mitologia nada óbvia que o filme toma para si. Pecadores definitivamente não é um exemplar qualquer e merece seu lugar no panteão de filmes de alta qualidade, ao lado de obras como Clube da Luta e Corra!, que alinham texto e subtexto com precisão.
Cinco estrelas. E olha que eu não dou cinco estrelas para qualquer filme, hein.
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