Recanto Heroico

Fui. Sou. Serei? Um relato de um indivíduo deslocado.

Publicado em: 31/12/2025 16:56

Levei algumas semanas para escrever o presente texto, não pela complexidade das palavras que aqui queria empregar, mas pelo conteúdo que queria imprimir. Muito se pode dizer sobre os dias de hoje, sobre a efemeridade das relações, sobre o culto a forma e não ao conteúdo, sobre a homogeneização das massas de manobra, polarização das relações, etc, porém nada que eu diga aqui será tão significante quanto o que já esteja impressa em vocês próprios, pois iram ressoar com menor significância. Enfim, tentarei começar do princípio e dessa forma falarei de mim.

Primeiramente, sou Octacius Olimpo, prazer, e este é um alter ego. Gosto de pensar o seguinte: assim como Stan Lee guardou seu verdadeiro nome para as "obras de verdade" que jamais escreveu além dos quadrinhos, guardo meu nome de verdade para algo com real significado que não os pretensos textos que aqui escrevo ou as relações que jamais cultivei. Tenho neste momento 23 anos de idade, filho do final do século passado. Um período de transição, vi desde disquetes, a ascensão e queda dos CDs e DVDs e todo o trajeto do boom dos streamings. E posso dizer, com certa convicção que entre todos esses anos de minha vivência os últimos anos foram os que mais me causaram reflexão, e diria até que um refluxo mental. Tudo hoje em dia ficou mais complicado. Existe um conflito intrínseco, além do óbvio político, moral. Conflito de ordem comportamental, o velho contra o novo, ser casto ou "sair pegando geral", e quem está certo? Na verdade, ninguém. E falando sobre mim, o que tenho de especial para estar escrevendo esse relato? Possuo transtornos psiquiátricos.

Fui diagnosticado aos 19 anos, quando estava no segundo ano da faculdade, com transtorno obsessivo compulsivo, vulgo TOC. E tendencias depressivas cabe dizer. Posso culpar a sociedade, pois não me sinto encaixar nela, posso culpar meus pais por terem sido super protetores, mas o maior culpado foi minha própria pessoa, por ter sido negligente comigo mesmo, e por acreditar que cada um é responsável pelo próprio destino. E na verdade essa é uma história real, então a tendencia é que verdadeiramente não se tenha nenhum culpado de fato, na verdade é o que é. Agora feita as apresentações, qual é o objetivo do presente texto?

Me foi solicitado, pelo menos duas vezes, para falar sobre minha condição psiquiátrica. Tenho uma teoria sobre elas, que na verdade tangencia bastante o senso comum. Elas se manifestam sobretudo quando tentamos controlar o incontrolável em nossas vidas. Quando nos dizemos internamente "se eu fizer tal coisa - pisar em uma risca, riscar a borda do papel, não encostar em algo, lavar excessivamente as mãos - garanto que algo ruim não me aconteça", uma barganha interna para lidar com o que é imprevisível. E para tanto, para lidar com as coisas cotidianas precisamos de ferramentas. E sobre quais são as minhas ferramentas para conseguir lidar com elas, diria que sumariamente, a filosofia, o pensamento crítico e sobretudo racional. Sumariamente, ideias, boas ideias. Gosto de pensar que vivo por elas, vivo para ler, assistir, acessar, ou criar boas ideias, o que tem se tornado cada vez mais raro. E uma das ideias que me tem sido uma ancora emocional muito forte é a que está presente no livro de C. S. Lewis, a Abolição do Homem. Hoje, muitos desses ditos transtornos, diria até mal estar social, é criado por uma infundada e eterna comparação. Quem tem o melhor carro, quem tem a melhor casa, quem tem mais bonecos cabeçudos, quem tem a maior unha, quem tem o melhor shape. Estamos em uma perpétua procura de alto aperfeiçoamento estético, e nos esquecemos de olhar para dentro. Entramos no Instagram corriqueiramente para acessarmos pessoas com sorrisos amarelos, vivendo vidas superficialmente plenas, e nos transportando para aquelas realidades de pixels que só mostram uma moldura do que realmente querem que vejamos, sem olhar de verdade para dentro daquela situação que nada poderia nos dizer além para os próprios criadores do conteúdo. Acredito que as coisas que realmente valem a pena na vida não podem ser capturadas por raios luminosos e transportadas via bits pela Internet. E o que tem a ver o livro de Lewis com tudo isso?

Resumidamente, relevando as críticas que Lewis lança ao homem moderno, os chamados homens sem peito, me foi útil a perspectiva que ele lança sobre o olhar que podemos ter sobre a realidade. Quando temos consciência de nossa condição quanto animal racional e social, podemos avaliar elementos, de qualquer natureza com diferentes níveis de sensibilidade, dentre eles, o cínico - que diria algo do tipo "a realidade está uma merda, lavo minhas mãos" - o ignorante - "vou curtir, que se dane" - e o sensível - "a realidade realmente é desagradável, mas vou procurar auto aperfeiçoamento no que eu vir que tem valor, e o que fizer sentido vou passar para a frente para que outras pessoas possam também ser tocadas" - o que antes acreditava que só existia os dois primeiros. Tomemos como exemplo as películas cinematográficas. Existe quem consome os filmes "pipocão", apenas para se divertir, ou podem ir ainda mais baixo, procurando conteúdos puramente de caráter de entretenimento, digamos, mais lascivo. Existe o cinema cínico, que expõe com grande domínio sobre o que versa, como os filmes de Lars Von Trier, ou thrillers bons como Garota Exemplar ou Beleza Americana. E tem os que são sumariamente otimistas, como Forrest Gump, De volta para o futuro, La la land, Mãe!, etc. Enfim, foi a metáfora que consegui pensar de bate pronto.

O que quero dizer que é muito fácil ter consciência e desistir, eu bem sei, porém há mais valor em levantar a cabeça, não olhar para o chão, mas para as belas nuvens acima de nossas cabeças que podem assumir qualquer forma, apenas limitadas por nossa imaginação. Não se engane, não estou dizendo que o mundo é bom. Mas também não estou dizendo que o mundo é ruim. Apenas estou dizendo que você pode o tornar, pelo menos em um âmbito mais pessoal, o que quiser que seja. Reclamar que "fulano tem um cabelo mais sedoso do que o seu", ou "cicrano tem uma família mais rica do que a minha", pode dar ao outro um valor inicial mais elevado a princípio para alcançar algum objetivo. Porém o que realmente importa na fórmula da vida, não é o valor inicial que cada um possui, como na física. O que realmente importa é a taxa de aceleração que cada um imprimi sobre si. Em outras palavras, ter mais dinheiro, por exemplo, pode ser um facilitador, ou qualquer condição que te favoreça perante o outro, mas um facilitador fixo, estático, não um agente que pode causar uma real mudança, dinâmico. O que é realmente dinâmico é a força de vontade individual.

Dessa forma acredito que a felicidade é uma coisa muito pessoal. O sucesso é algo muito subjetivo. A sociedade tem seu jogo, digamos o Monopoly. Tem suas regras, e para se dar bem nele tem que estudar, ter um bom emprego, crescer na firma, se tornar CEO da firma, se casar, ter dois filhos! Hipotecar a casa, começar um negócio, crescer o negócio... Mas na verdade mesmo, esse não é o único caminho. Não mesmo. E os caminhos são infinitos. O jogo é deles, e você pode ser feliz jogando o jogo deles, tentar se adequar a regra deles, tentar ser bem sucedido, comprar - porque nossa sociedade é baseada no capitalismo - uma carta Copacabana ou um Lebron. Porém o mais importante somos nós próprios. É uma renuncia pessoal que fazemos, e a escolha parte de cada indivíduo, ou seja, a sua felicidade está em si mesmo, caso ainda não a tenha renunciado. Particularmente, jogo o jogo suficientemente para quando cair em uma casa que tem que pagar aluguel eu o consiga pagar e possa continuar andando, mas estou longe de querer ganhar esse jogo.

Espero que tenha me feito ser compreendido.

Excelsior caros leitores de antimatéria.

Atenciosamente, Octacius Olimpo.

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